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Como toda pessoa alérgica e estabanada, a minha relação com tapetes em geral sempre foi tensa. Entre uma seqüência interminável de *atchins*atchins*atchins* e o olhar maternal de censura sempre que eu chegava da rua e queria atravessar correndo pela sala, sabe como é, o pânico tomou conta de todas as fibras do meu ser.
(Isso, é claro, quando não eram as fibras do tapete de mamã que eram encharcadas de guaraná, groselha, suco de caju Maguary ou o que estivesse à mão. "Mão furada", claro).
Outro detalhe que não colaborou para a minha história de amor com tapetes foi a falta de opções ao meu redor. Da tia mais embolorada à prima semi-prafrentex, os lares que compunham o meu universo familiar só pareciam conhecer três variedades:
1. O persa legítimo
2. O persa genérico
3. O carpete do capeta
1. O persa legítimo é produto de uma manifestação cultural e artística milenar, de uma tradição que passa de família para família há centenas de gerações. Na minha vida prática, porém, tende a vir acompanhado por bustos romanos e móveis pesadões em madeira escura, o habitat natural para certos parentes com muita grana e nenhum senso de humor. Quase sempre o persa legítimo foi comprado em uma viagem ao Oriente Médio, que quase sempre é relatada como uma experiência antropológica digna da National Geographic - já que alguns tios ricões fazem pacotes exóticos apenas para constar. Para garantir a diversão apenas na volta, quando contam sobre os hotéis 5 estrelas e a "comida esquisita" para os parentes mais humildes e aí sim podem se regozijar a respeito do tapete. Que no final das contas, tirando o valor social do objeto em si, é para eles tão bonito quanto uma passadeira comprada na Casa & Video.
2. O persa genérico, por sua vez, é o peito siliconado dos tapetes: parece, mas não é. A partir daí, aliando essa sua característica denoréxica* a algum bom gosto por parte do seu proprietário, ele até pode combinar com vários recintos, propiciando a ilusão de um item caro mas que não custou os olhos da cara. No entanto, o que mais vemos nas revistas e lojas de decoração é o persa MADE IN CHINA com uma etiqueta de preço cheia de zeros à direita.
3. Quanto ao carpete do capeta, bem, o que falar sobre ele? Que acumula megalópoles de ácaros? Que desbota com o sol? Que é medonho? Lá onde Lúcifer habita aposto que o piso é carpete.
Agora, se na minha tenra infância eu soubesse possível a existência de um tapete à la Bonequinha de Luxo, com Audrey Hepburn fumando vetorizadamente a sua piteira, acho que hoje eu seria um ser humano melhor. Mais tolerante. Capaz de amar o próximo e não ter o desejo secreto de derrubar Fanta uva no carpete alheio. O modelo da foto é fabricado pela loja inglesa The Rug Seller, que também oferece ao seus clientes a chance de ter um JIM MORRISON e um BOB MARLEY aos seus pés. Tudo isso pelo "módico" preço de £ 386.99 + £ 120 de frete.
No entanto, um sonho de consumo que ainda hei de realizar é esse CALÇADÃO DE COPACABANA versão felpuda, inspirado pelas pedras portuguesas que celebrizaram o bairro carioca. O tapete da foto pode ser encontrado na loja By Kamy, que tem filiais Brasil afora. O preço ainda é salgado, mas há outras lojas que fazem modelos por encomenda a partir de qualquer desenho escolhido pelo cliente. É a Princesinha do Mar ao alcance de todas as sala de estar, basta fuçar por aí. Mas fuçar com jeitinho, senão... *Atchim*!